Procuro um abraço efémero. Alguém que me possa dizer que vale a pena acordar.
Não tenho nada para oferecer além de um corpo quente e um coração vazio.





Já estiveste apaixonado?
– O amor é para as pessoas reais.
– Pareces verdadeiro.
– As pessoas reais desagradam-me.
– Desagradam-te?
– Odeio-as.

Charles Bukowski

Há noites terríveis. Noites carregadas de lembranças que torturam e magoam. Os lençóis são suaves como lixa e as lágrimas e o desespero afastam o sono. És um corpo vazio e uma alma sem brilho. E então escreves para arrumar as ideias. Escreves para esticar o tempo antes que ele fuja. Escreves para afastar a loucura e o abismo que estão cada vez mais próximos. Escreves para te salvar, sabendo de antemão que não há salvação possível.



Quando nos encaminhamos para o amor
todos vamos ardendo.
Levamos amapolas nos lábios
e uma centelha de fogo no olhar.
Sentimos que o sangue
nos golpeia as têmporas, as pelves, os pulsos.
Damos e recebemos rosas vermelhas
e vermelho é o espelho do quarto na penumbra.

Quando voltamos do amor, vagarosos,
desprezados, culpados
ou simplesmente estupefatos,
regressamos muito pálidos, muito frios.
Com olhos e cabelos envelhecidos e o número
de leucócitos nas alturas,
somos um esqueleto e sua derrota.

Porém continuamos indo.

Amália Bautista

Estas pedras que soçobram dentro do tempo até onde vão arrastar-me?*




É no silêncio que vivo os meus dias. Vencida pelo cansaço. Agarrada a esperança de conseguir seguir em frente. Mas é essa mesma esperança que me impede de avançar.  Se algum dia acreditei que era possível ser feliz com pouco, sei hoje que foi pura ingenuidade. Crescem-me espinhos no corpo, reflexo do negro que me corrói a alma. Amar a escuridão deixa marcas no corpo. Feridas que teimam em não sarar. 

Titulo: yorgos seferis 

Um dia de cada vez

Um domingo sem história, como a maioria dos domingos. Tenho sorte, apesar de tudo.
Correr atrás da felicidade é como correr atrás do vento. Não nos serve de nada. Temos a vida que temos. E fazemos o que somos. Durante o tempo que nos derem. 
Há que continuar a caminhar. Devagar.

A embriaguez é um momento de vida incendiada, ou suspensa, e a ressaca um tempo de lenta e demorada reconciliação com o mundo, e comigo mesmo*




Há histórias assim, que te levam ao limite de ti, de tudo. Histórias que se agarram à pele e te deixam sem força. Histórias em que demos tudo, em que pensamos não conseguir dar mais. Histórias que dás como certas, e nas quais te sentes invencível. São histórias que deixam fissuras. Histórias que te fazem acreditar que nunca vais conseguir seguir em frente. 
E sabes a dor que tira o ar. Deixas de respirar. É difícil dar o coração inteiro e recebê-lo de volta, partido em mil pedaços. Quanto tempo demora um coração para cicatrizar? Quanto tempo demoram as memórias a desaparecer? 

Título: al berto


Quero arrancar do peito este demónio que invade as minhas noites e as minhas madrugadas.
Quero fechar a porta à dor e tentar pelo menos sobreviver.

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Já não há mais nada para destruir

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Viraste as costas sem olhar para trás
Desististe 





Quando algo nos persegue na nossa memória ou na nossa imaginação, as leis do silêncio são inúteis, é como fechar uma porta à chave numa casa em chamas na esperança de nos esquecermos que ela está a arder*




Ela não diz nada. Não deve. Já disse tudo. Já disse muito e as palavras bateram no eco do silêncio. Não diz nada mas escreve. Escreve a tristeza. Escreve as saudades. Escreve e pensa nele. Os textos são um monólogo dedicado a quem já não está.



Titulo: Tennessee Williams


PAUL DALY : Portrait bed


Acorda todos os dias na esperança de encontrar um rasgo de felicidade
Mas depois de abrir os olhos percebe que nada mudou
E então espera que a tempestade passe
Que o nevoeiro que lhe envolve o coração desapareça
Fecha a porta ao amor e à confiança
E noite após noite deita-se no abraço feroz da desilusão, do desespero e do cansaço





Respira o perfume dos lençóis que secam ao calor do sol. Enche a garrafa e ouve o barulho da água que escorre. 
E o silêncio. Não chama ninguém e ninguém chama por ela. Passeia as coisas de uma divisão da casa para outra. Abre caixas e encontra tesouros esquecidos. Repara que as mãos envelheceram e saboreia o espaço e a solidão. Talvez devesse escrever as histórias para as viver depois e nunca o inverso.
Espera que a noite desça para começar o primeiro capítulo.

A noite desce, o calor soçobra um pouco*



O calor que deixa as janelas abertas e as cortinas de renda amareladas a espreitar por cima dos parapeitos. Fazem cócegas a quem circula e deixa entrever nos intervalos do vento as pessoas por dentro. Preguiça, muita. Roupa, pouca. Ouvem-se músicas quentes. Os gatos dormem em cima das costas e os humanos também, o mais longe possível uns dos outros. É o calor e as miragens que revogam a solidão.

Título: Alberto Caeiro


Há a viagem. A partida que te leva a todo o lado e a lado nenhum. A descoberta do toque e da emoção. Às vezes a vontade de viver. Consciência e sonho que se misturam e a fragilidade. O direito à imperfeição é o que faz de nós humanos. Mas depois há os pontos cardeais que mudam o caminho e que afastam a audácia. Há as palavras lidas que aumentam a esperança mas o silêncio continua. Ilusão, de certeza. As linhas da sobrevivência maquilham a alma e afastam o corpo do que já foi.
Foi. Já não é.